O Instagram está morrendo — ou se transformou em algo que nunca prometeu ser?
- olavomedeirosjr
- 21 de jan.
- 3 min de leitura

Durante muito tempo, o Instagram foi sinônimo de criatividade, conexão e prazer em compartilhar. Hoje, para muitos usuários, ele se parece menos com uma rede social e mais com um chefe exigente, instável e ingrato — que normalmente não remunera ou te dá migalhas, muda as regras o tempo todo e pune quem não acompanha o ritmo.
Não é exagero dizer que o Instagram, como serviço de mídia social, entrou em declínio. Ele ainda existe, claro, mas já não cumpre o papel que o tornou relevante. Em muitos aspectos, transformou-se justamente no oposto do que prometia: uma mídia antissocial.
Do paraíso criativo ao ambiente de exaustão
Quando o Instagram surgiu, em 2010, criado por Kevin Systrom e Mike Krieger (este último brasileiro), era um verdadeiro paraíso, especialmente para fotógrafos amadores. Os filtros transformavam fotos comuns em imagens interessantes, com estética retrô e moderna ao mesmo tempo. A proposta era simples: compartilhar momentos.
Naquela fase inicial, acompanhávamos a vida de amigos mesmo à distância, sentíamo-nos próximos de pessoas do outro lado do mundo e seguíamos criadores e marcas que admirávamos. Havia curadoria, intenção e prazer. Quem compartilhava conhecimento fazia isso por vontade genuína — o termo influencer sequer existia.
A virada: algoritmo, dinheiro e controle
Com o passar dos anos, o Instagram deixou de ser um espaço de troca para se tornar uma máquina de monetização — extremamente eficiente para a Meta e seus acionistas, mas cada vez mais frustrante para a maioria dos usuários.
Hoje, somos constantemente invadidos por conteúdos de contas que não seguimos, enquanto raramente vemos postagens de amigos ou criadores que admiramos. O número de seguidores perdeu importância: quem decide o que será visto é o algoritmo.
Mais do que isso, o Instagram passou a exigir comportamento. Ele dita formatos, tendências, linguagens e até emoções. Se você não faz a dancinha certa, não usa o gancho do momento, não “descobre algo escondido” ou não provoca engajamento imediato, seu conteúdo é punido com invisibilidade.
De rede social a mídia antissocial
Nesse processo, o Instagram também deixou de ser um espaço de encontro para se tornar um território de batalhas simbólicas, alimentadas por polarização, disputas ideológicas rasas e narrativas simplificadas. O engajamento passou a premiar o conflito, o exagero e a indignação — não o diálogo.
A fake news se tornou um problema crônico. Conteúdos enganosos, recortes fora de contexto e desinformação circulam com mais facilidade do que análises profundas ou trocas honestas. Não porque os usuários desejem isso, mas porque o sistema recompensa o que gera reação rápida, não reflexão.
O resultado é um ambiente mais ruidoso, agressivo e solitário. Uma plataforma que conecta milhões de pessoas, mas que promove cada vez menos conexão real.
A culpa é sempre do usuário
O efeito psicológico desse modelo é profundo. O fracasso de alcance é apresentado como culpa individual: você não se adaptou, não foi criativo o suficiente, não seguiu as regras — mesmo que essas regras mudem diariamente, ou até ao longo do mesmo dia.
Você tenta, exaustivamente, se moldar ao que o algoritmo pede, enquanto carrega uma angústia constante: a sensação de que nunca é suficiente. Esse ciclo cria uma relação quase abusiva entre plataforma e criador.
Mas talvez essa angústia não seja só nossa.
Um sistema que também demonstra cansaço
Se o Instagram estivesse realmente saudável, não haveria necessidade de mudanças tão frequentes, agressivas e desesperadas nas regras do algoritmo. A voracidade com que a Meta ajusta formatos, testa tendências e impõe novos comportamentos também denuncia insegurança. Um produto que vai bem não precisa se reinventar de forma tão caótica.
É comum ouvir que ninguém é obrigado a estar ali. Que basta apagar o aplicativo e seguir a vida. Na teoria, isso é verdade. Na prática, não exatamente. O Instagram ainda funciona como vitrine, canal de divulgação, ferramenta de trabalho e meio de conexão. Para muitos, sair significa desaparecer — pelo menos até que algo novo surja, como aconteceu um dia com o falecido Orkut.
Presos a uma rede moribunda
No campo da fotografia, alternativas já existem. Plataformas como o 500px, por exemplo, ainda mantêm o foco na imagem, na curadoria e na troca real entre fotógrafos. Mas, no geral, seguimos presos ao Instagram.
Presos a uma rede que já não entrega o que prometeu, que se tornou antissocial, polarizada e exaustiva — mas da qual ainda dependemos. Como uma doença crônica, aprendemos a conviver com os sintomas, reclamamos do diagnóstico, ajustamos a rotina.
Enquanto isso, seguimos esperando. Pela cura. Ou por algo novo.




Não uso o Instagram comercialmente, por isso não sinto diretamente os efeitos das exigências do algoritmo. Muito bom o seu texto.